Trump declara guerra à América do Sul

*Antonio Peres

Diante desse cenário, o Brasil não deve permanecer inerte nem assumir uma postura ambígua

A invasão e bombardeio da Venezuela, acompanhados do sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro, por ordem direta de Donald Trump, não pode ser interpretada como um episódio isolado de política externa norte-americana.

Trata-se, em essência, de uma declaração de guerra dos Estados Unidos à América do Sul e de um ataque frontal ao princípio da soberania nacional que sustenta o direito internacional contemporâneo.

Ao recorrer sistematicamente à mentira, ao cinismo diplomático e à retórica moral seletiva, Trump assume práticas clássicas do neocolonialismo: deslegitima governos não alinhados a Washington, constrói narrativas de “salvação democrática” e, sob esse pretexto, busca apropriar-se de recursos estratégicos — neste caso, o petróleo venezuelano e, em outros países, das terras raras.

O objetivo nunca é a democracia, mas, sim a sujeição política e econômica materializada na tentativa de impor um governo fantoche obediente aos interesses dos Estados Unidos.

Atacar com bombas um país pacifico e sequestrar seu presidente configura um ato criminoso inaceitável para o mundo democrático.

Para a América Latina, em especial, o episódio reprisa uma longa história de intervenções, golpes patrocinados e guerras por procuração que custaram milhões de vidas e décadas de atraso institucional.

A atual política externa de Trump, abertamente neocolonialista, rompe com qualquer noção de equilíbrio internacional e coloca em risco a paz global ao deflagrar uma escalada de violência que pode culminar numa apocalíptica Terceira Guerra Mundial.

Diante desse cenário, o Brasil não deve permanecer inerte nem assumir uma postura ambígua.

A agressão à Venezuela é um alerta claro: ou o mundo reage de forma firme e coordenada, ou aceitará a normalização da barbárie como instrumento legítimo de política externa norte-americana

Como maior país da América do Sul, detentor de peso diplomático e econômico significativo no âmbito do G20, dos BRICS e da Celac, o Brasil deve assumir uma posição clara de resistência.

Isso implica exigir publicamente a libertação imediata de Nicolás Maduro, a retirada das tropas norte-americanas do Caribe e o respeito integral à soberania venezuelana.

No plano diplomático, é imperativo chamar de volta o embaixador brasileiro nos Estados Unidos e, em contrapartida, convidar o embaixador norte-americano — ou sua representação diplomática — a deixar o território nacional.

Medidas adicionais devem ser consideradas também com urgência: a suspensão do comércio bilateral com os Estados Unidos como sinal inequívoco de repúdio e a orientação formal para que cidadãos brasileiros deixem o território americano, diante do agravamento das tensões e da instabilidade política gerada pela política externa beligerante estadunidense.

O ataque norte-americano à Venezuela não se limita a um conflito regional.

Ele coloca em marcha uma mudança estrutural na política de alianças militares globais.

Ao demonstrar que não reconhece limites jurídicos nem diplomáticos, Washington, sob comando do irresponsável Donald Trump, empurra o Sul Global para uma reorganização estratégica inevitável.

Os países da América Latina, da África e da Ásia devem buscar rapidamente mecanismos coletivos de defesa, articulando-se com potências como China e Rússia, bem como com outros atores estratégicos, a exemplo da Coreia do Norte e do Irã, com o objetivo de garantir proteção efetiva — inclusive por meio de armamentos avançados, até mesmo nucleares — para assegurar sua sobrevivência e autonomia.

Em última instância, a responsabilidade histórica recairá sobre aqueles que, em nome de interesses econômicos imediatos, ambição colonialista e arrogância, optaram por corroer as bases da ordem internacional.

A agressão à Venezuela é um alerta claro: ou o mundo reage de forma firme e coordenada, ou aceitará a normalização da barbárie como instrumento legítimo de política externa norte-americana.  

ANTONIO PERES PACHECO é escritor e jornalista, especialista em Literatura Brasileira e em Marketing e Comunicação Política e Privada.