Mais do que uma celebração religiosa, a Festa de Airá representa a força de uma história que atravessa gerações, a dedicação de quem protege as raízes africanas e o compromisso de não deixar morrer os ensinamentos dos ancestrais.
Há histórias que não podem ser esquecidas. Histórias que sobrevivem ao tempo porque alguém escolhe cuidar delas, mesmo quando o caminho exige renúncia, coragem e perseverança. No Candomblé, essa escolha se manifesta no cotidiano dos terreiros, no respeito aos mais velhos, na transmissão dos ensinamentos, nos cânticos, nos rituais e na força de uma comunidade que encontra na ancestralidade a razão de continuar.
Em Várzea Grande, essa história também tem endereço, tem família, tem fé e tem axé. Desde 21 de março de 2013, o Ilê Oberunjá Asé Ajagura mantém viva sua trajetória de dedicação às tradições do Candomblé. É nesse espaço sagrado que a memória dos que vieram antes encontra as mãos daqueles que assumem a responsabilidade de levar adiante seus ensinamentos.
A Festa de Airá, marcada para 12 de dezembro de 2026, é parte dessa caminhada. Mais do que uma data no calendário religioso, ela representa a continuidade de uma herança que não se mede em anos, mas na força dos vínculos, no respeito aos fundamentos e no amor de quem compreende que preservar a tradição é também proteger a própria história.
A ancestralidade não é apenas olhar para trás. É reconhecer de onde viemos para saber o que precisamos manter vivo. No Candomblé, os ancestrais não são lembranças distantes: fazem parte de uma referência espiritual, cultural e comunitária que orienta o presente e ajuda a preparar o futuro. Cada ensinamento transmitido, cada fundamento preservado e cada gesto de respeito aos mais velhos reafirma a ligação entre gerações.
É por isso que uma festa de terreiro carrega um significado que vai muito além daquilo que os olhos conseguem ver. Há preparação, trabalho, compromisso e dedicação. Há pessoas que oferecem seu tempo e sua energia para que a tradição aconteça. Há uma comunidade que se reúne não apenas para celebrar, mas para reafirmar sua identidade, fortalecer seus laços e renovar o compromisso com aquilo que recebeu de seus antepassados.
Em uma cidade como Várzea Grande, marcada pela diversidade de histórias, origens e expressões culturais, a presença de uma casa de Candomblé também representa a contribuição das tradições de matriz africana para a formação da identidade brasileira. Os terreiros são espaços de fé, mas também de transmissão de conhecimentos, convivência, pertencimento e preservação de um patrimônio cultural construído ao longo de gerações.
Essa contribuição precisa ser reconhecida com respeito. Durante séculos, as religiões de matriz africana enfrentaram preconceito, perseguição e tentativas de silenciamento. Ainda hoje, preservar essas tradições significa afirmar o direito de existir, cultuar, ensinar e transmitir uma herança que integra a riqueza cultural do Brasil. Manter um terreiro vivo, portanto, é também resistir ao esquecimento e reafirmar a dignidade de uma história que merece ser respeitada.
À frente dessa missão está o Babalorixá Adriano Ty Airá, cuja experiência e dedicação se expressam no compromisso com a continuidade do Ilê Oberunjá Asé Ajagura e com os fundamentos que sustentam a vida religiosa da comunidade. Ser responsável por uma casa de axé é assumir uma tarefa que ultrapassa a organização de cerimônias: é cuidar de pessoas, preservar ensinamentos, orientar caminhos e compreender que a tradição recebida precisa ser transmitida com responsabilidade.
Esse trabalho exige constância. O axé não se fortalece apenas nos dias de festa, mas também na dedicação silenciosa, no cuidado com a casa, na disciplina, no respeito aos mais velhos e na disposição de ensinar às novas gerações o valor de suas raízes. É nesse trabalho contínuo que a experiência de uma liderança religiosa ganha significado: na capacidade de manter viva a tradição sem perder de vista a responsabilidade de entregá-la ao futuro.
A Festa de Airá, ao reunir integrantes da comunidade religiosa e pessoas vindas de diferentes municípios de Mato Grosso e de outros estados, também reafirma a importância dos laços entre casas e famílias de axé. Cada encontro fortalece a troca de experiências, a memória coletiva e o sentimento de pertencimento a uma tradição que atravessou fronteiras e encontrou no Brasil novas formas de florescer, sem perder a ligação com suas raízes africanas.
Fortalecer o axé é fortalecer a vida da tradição. É compreender que aquilo que foi recebido não pertence somente a uma geração. Existe uma responsabilidade de cuidar, preservar e transmitir, para que os que chegam depois também possam conhecer sua história, compreender seus fundamentos e encontrar nesse legado uma fonte de identidade e continuidade.
Quando os atabaques ecoarem na Festa de Airá, em dezembro, não será apenas uma celebração que ganhará vida. Será também a expressão de uma história construída por muitas mãos, sustentada pela fé e alimentada pela dedicação daqueles que não permitem que a memória dos ancestrais se apague.
Porque uma tradição não permanece viva por acaso. Ela sobrevive porque existem pessoas dispostas a protegê-la. Pessoas que entendem que a ancestralidade é raiz, que a fé é compromisso e que o axé é força para continuar.
Em Várzea Grande, a caminhada do Ilê Oberunjá Asé Ajagura e a dedicação do Babalorixá Adriano Ty Airá reafirmam essa missão: honrar quem veio antes, cuidar do presente e preparar o caminho para quem ainda virá.
Que o axé siga vivo. Que as raízes permaneçam firmes. E que a tradição nunca precise lutar sozinha para continuar existindo.