Projeto demoníaco de poder X Cultura da Paz e Civilização do Amor

*Juacy da Silva

“Deixai que Cristo exerça a sua ação purificadora na sociedade. Não o crucifiqueis de novo: seria sacrilégio, porque é Filho de Deus, e seria suicídio, porque é filho do Homem. E a nós, seus humildes ministros, deixai-nos propagar por toda a parte, sem entraves, a boa nova do Evangelho da paz, que meditámos neste Concílio.” Mensagem do Papa Paulo VI, na Conclusão do Concílio Vaticano II, aos Governantes, em 08 de dezembro de 1965.

É imperioso transformar o projeto de morte em projeto de vida aqui e agora!

Introdução

Só existem dois caminhosSó existem dois caminhos, ou continuamos regando, alimentando, apoiando o “projeto demoníaco de poder” em curso, que destrói o planeta e a humanidade, ou o enfrentamos para estabelecer novos paradigmas da cultura da paz e da civilização do amor.

Não existe terceira via.

A omissão alimenta mais sofrimento, violência, fome, exclusão, pobreza, degradação socioambiental e guerras. Não podemos permitir que psicopatas decidam o destino dos povos.

Vivemos um caos global em todas as dimensões: aquecimento global, crise climática, violência generalizada como fio condutor da história humana, guerras que ceifam milhares de vidas inocentes, e ao mesmo tempo uma revolução científica e tecnológica com domínio da IA a serviço de grandes grupos transnacionais na busca frenética por lucro, acúmulo de capital e riqueza, dominação e hegemonia mundial, rompendo com a dignidade humana.

Ver: O que é e como age este projeto demoníaco de poder

O termo não é técnico, nem científico, mas metáfora ética, moral, sociológica, teológica, escatológica e política.Na dimensão teológica, é a paródia de Deus, a mímesis inversa: o mal não cria, parasita. Em Apocalípse 13, a falsa trindade – Dragão, Besta do mar (poder político coercitivo) e Besta da terra (falso profeta ideológico) – exige adoração, não só obediência.

Na teologia paulina, Principados e Potestades (Ef 6,12): toda estrutura tem dimensão visível (instituição) e invisível (ethos). Quando possuída por soberba e egoísmo, passa a moer a dignidade humana. Suas armas: 1) Mentira institucionalizada – propaganda que chama o mal de bem; 2) Acusação e divisão – diabolos, o divisor, cria bodes expiatórios, ódio racial, preconceitos diversos, inclusive religiosos e sociais; 3) Necropoder e necropolítica – sacrifício humano sistêmico (morte pela fome, pela desnutrição, pelas guerras, pela falta ou precariedade dos serviços de saúde pública, medo da violência e da morte como forma de controle social e político – Hb 2,15). É a guerra santa que transforma o oponente em demônio a ser eliminado.

As engrenagens econômicas, sociais, culturais, religiosas, políticas e tecnológicas. Na macroeconomia global a financeirização especulativa, neocolonialismo ecológico (Norte terceiriza destruição para o Sul), austeridade seletiva, “euilíbrio fiscal” que corta recursos para a saúde, programas sociais e educação para manter subsídios e favorecimentos aos poderosos, para os rentistas, tudo em nome de um falso “equilíbrio fiscal” e de um real desequilíbrio socioeconômico.

No Brasil a drenagem do orçamento para pagamento de juros e amortização da dívida pública que alimenta o lucro de grandes banqueiros; comércio exterior igual ao do período colonial, exportando produtos primários e commodities que destroem o meio ambiente, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e demais biomas, enquanto o povo passa fome; alongando a fila dos ossinhos, a captura do Estado (Poder Público) por lobbies e grandes interesses econômicos e seus representantes nos parlamentos e executivos.

Na microeconomia  a informalidade, a uberização, a precariedade das relações de trabalho e de produção contribuem para a exclusão social de milhões de trabalhadores; a obsolescência programada, o consumismo, o desperdício, o endividamento predatório das famílias com taxas de juros abusivas, de até 400% ao ano, acorrentam essas famílias em uma engrenagem perversa a serviço dos grupos financeiros; a subjetividade neoliberal que culpa o indivíduo, eximindo o papel de um marketing perverso que alimenta o consumismo e gera a epidemia de “burnout”, a ansiedade e depressão nas pessoas e famílias endividadas, afetando a saúde mental dessas famílias.

O papel da teologia da prosperidade e do domínio

Articula-se a tríade letal: Teologia da Prosperidade (motor econômico do modelo demoníaco – riqueza como bênção, pobreza como fracasso pessoal e espiritual, santifica-se, assim, o neoliberalismo); Teologia do Domínio / Seven Mountain Mandate (projeto político – ocupar os 7 montes: governo, mídia, educação para teocracia) e Necropolítica (Mbembe – poder de decidir quem vive e quem morre). Fórmula a prosperidade justifica a negligência social + domínio justifica controle do Estado = necropolítica cristã que legitima violência contra os pobres, os negros, os indígenas, os “diferentes”, povos de terreiro e periferias.

No Brasil em 2026, isso pode ser visto na eleição de uma bancada ultraconservadora alinhada à direita e à extrema-direita bolsonarista, tanto no Senado quanto na Câmara Federal e em diversos estados, tanto os Governadores quanto os parlamentos estaduais fortalecem este projeto demoníaco de poder.

Complexo Industrial-Militar-Digital

Já amplamente e de longa data denunciada, a aliança das grandes corporações industriais, tanto na Europa, mas principalmente nos EUA, com governos das grandes potências ou potências emergentes tem favorecido, de um lado, a cartelização da indústria de defesa e, também, a chegada das chamadas Big Techs que dominam o desenvolvimento na era digital, principalmente da IA, para uso militar, faz parte deste mesmo projeto, inclusive em relação ao domínio de terras raras e outros minerais estratégicos em diversos países nas Américas e na África, principalmente.

O Brasil, pelas suas dimensões geográficas, seu peso econômico no mundo e pelos seus recursos naturais abundantes, passa a ser objeto do desejo deste projeto demoníaco de poder, tanto em relação às potências dominantes estrangeiras quanto em relação a grupos políticos, econômicos e fibanceiros nacionais, mas aliados incondicionais da matriz deste projeto destruidor.

O que dizem os Papas Francisco e Leão XIV Um diagnóstico profético

O Papa Francisco, ao longo de seu pontificado, não se cansou de denunciar e nos exortar em relação a esses grandes interesses econômicos, financeiros e militares na origem da crise climática, da destruição da Casa Comum e nas estruturas que geram pobreza, exclusão e violência.

Ele chamava, por exemplo, a idolatria do dinheiro desonesto de “esterco do diabo”, denunciava a sedução que o poder exerce sobre as pessoas, os perigos da “grandiosidade”, da opulência e da vaidade. O diabo é o divisor, age por fofoca, desperta o ciúme, estimula o fechamento em grupos.Por inúmeras vezes nos alertou contra o “demônio educado”, diplomático, da mundanidade e da mornidão.

O objetivo final é o fracasso humano via guerras, conflitos armados e desarmados, a corrupção e as injustiças, enfim, desrespeito à dignidade humana.

Nem tudo está perdido, ainda nos resta uma esperança, temos um antídoto.

Primeiro, não dialogar com a tentação, mas desenvolver entre nós o espírito e a prática da solidariedade, da oração e do cuidado dos vulneráveis e em defesa de todas as formas de vida, principalmente da vida humana.

Ao falar sobre esta “economia que mata”, sobre a cultura do descarte, do abandono, do pecado da omissão o Papa Leão XIV, em sua primeira Encíclica Magnifica Humanitas e em sua ExortaçãoApostólica Dilexi Te, sobre o amor aos pobres e em seus discursos e homilias, tem denunciado constantemente, com coragem profética, a idolatria dos projetos políticos, econômicos, tecnológicos e militares que se dizem livres, mas são escravos dos ídolos e do poder.

Tem também criticado o tecno-fascismo, verdadeiros oligopólios que reduzem os seres humanos a variáveis matemáticas, a algoritmos, enfim, a nova Torre de Babel e seus bezerros de ouro, afirmando que “magnífica não é a IA, mas o ser humano, imagem e semelhança de Deus, de cuja criatividade depende o desenvolvimento científico e tecnológico ao longo da história humana”.

Leão XIV também tem condenado, veementemente, o uso da IA para decisões letais autônomas em operações de guerra e o “falso realismo político” que normaliza a guerra e tantas formas de violência, a destruição e a morte.

Por isso fala de “intensidade diabólica” de todas as formas de violência, principalmente das guerras e da desinformação que cria o “súdito ideal do totalitarismo” com narrativas nós contra eles.

Na Dilexi Te (Eu te amei – 04/10/2025) Leão XIV afirma “Devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza... curá-la de uma mazela que a torna frágil e indigna”.

Julgar/Agir – Nós temos o antídoto para combater o projeto demoníaco de poder

Este antídoto tem um nome: cultura da paz (desarmada e desarmante) e civilização do amor. Leão XIV propõe 5 pistas ou caminhos de responsabilidade pública em Magnifica Humanitas, mas, creio eu, dirige-se mais diretamente aos cristãos em geral e aos católicos em particular: 1) Desarmar as palavras, 2) Construir a paz na justiça e na solidariedade/fraternidade, 3) Assumir o olhar das vítimas, colocar-se no lugar do pobre, de quem é excluído e injustiçado, 4) Cultivar um saudável realismo, baseado sempre na esperança, jamais no pessimismo, 5) Revitalizar o diálogo e o multilateralismo.

Para Francisco e Leão XIV, a paz não é ausência de guerra, mas dom ativo que nasce no coração humano transformado nossas relações.O diálogo é relação amorosa, verdadeira, é o reconhecimento do outro como pessoa, no espírito da igualdade e fraternidade, na busca da verdade, quebra de novas escravidões.

A cultura da paz não é uma varinha mágica, não é um “pacote de bondades”, mas sim fruto da escuta, do diálogo, da atenção, do respeito, da solidariedade, da empatia, enfim, é um processo e um estilo de vida a serem cultivados desde a mais tenra idade, fortalecidas essas virtudes principalmente ao longo da primeira infância, na adolescência e juventude, para que adultos livres, responsáveis e conscientes possam assumir suas ações e suas caminhadas evitando o uso da violência como instrumento de resolução dos conflitos.

A civilização do amor, da “Cidade de Deus”, a Nova Jerusalém, não nasce de imposições ideológicas, doutrinárias, religiosas ou políticas, mas da soma de pequenas e tenazes fidelidades do dia a dia, santidade silenciosa, coerência, espiritualidade e fé engajadas, libertadoras como base de nossa existência terrena.

Aqui é que entram a DSI – Doutrina Social da Igreja,  a justiça social, a justiça intergeracional, a justiça ambiental e climática, os Direitos Humanos, o controle ético, social e político das tecnologias, enfim a política verdadeira, como nos exortava o Papa Francisco na Fratelli Tutti, a serviço do bem comum, da fraternidade universal e da ecologia integral (Laudato Si 2015):

Vale a pena relembrar suas palavras “Mas nem tudo está perdido, porque os seres humanos podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se” – Laudato Si, 2015.

Conclusão

Em relação a este projeto demoníaco de poder, o seu desmascaramento já aconteceu na Cruz (Cl 2,15): Cristo expôs Principados e Potestades, mostrando que os maiores poderes estavam alinhados com o assassinato de Deus encarnado.

Resistir hoje a este projeto demoníaco de poder é praticar a verdade contra a mentira institucional, é cultuar o amor sacrificial contra o egoísmo sistêmico.

Precisamos substituir a lógica da cultura da violência e da economia da morte por um novo projeto de humanidade que inclua a regeneração ecológica, a conversão integral espiritual, econômica, social e ecológica, estimular o bem viver, bem querer, bem comum, a Terra sem Males entre todos os povos.

É a passagem do projeto demoníaco de poder que leva à morte, à destruição e ao sofrimento humano, para um projeto de vida e vida em abundância.Não há terceira via. Quanto mais omissão estamos cultivando, mais barbárie. Este é o momento da mudança, da transformação, mirando “um novo céu e uma nova terra”! (Apocalipse 21:1 e também em 2 Pedro 3:13).

*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro-Oeste. E-mail profjuacy@yahoo.com.br Instagram @profjuacy WhatsApp 65 9 9272 0052