MUDANÇAS: O ELEITOR NÃO QUER APENAS MUDAR DE PRESIDENTE

*LAURA LUCENA

O que as urnas de 2026 estão dizendo? É a pergunta que não quer calar. E elas estão dizendo muitas coisas, suscitando novas perguntas que precisam ser analisadas sob, ao menos, cinco dimensões: a sociológica, a psicológica, a econômica, a político-institucional e a comunicacional.

Para compreender esse cenário, precisamos ir além da corrupção, das pesquisas eleitorais, da propaganda e até da divisão entre esquerda e direita.

Minha hipótese central de análise é que o Brasil vive uma combinação de fadiga política, insegurança econômica, transformação cultural e crise de confiança nas instituições. O conservadorismo é apenas uma parte desse fenômeno, mas não explica tudo.

Um estudo da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, divulgado em junho de 2026, encontrou um dado particularmente revelador: 69% dos brasileiros não se enquadram na polarização afetiva estrita. A pesquisa identifica rejeição, indiferença e desalento como componentes importantes do comportamento político.

Isso muda a interpretação das eleições.

Talvez o fenômeno não seja simplesmente o crescimento de dois exércitos ideológicos. Pode haver um contingente muito grande de brasileiros cansados de ambos os lados. E não estar polarizado tampouco significa estar disponível para uma terceira via. Pode significar simplesmente estar distante, desconfiado ou desencantado.

Mas o que, afinal, esse eleitor deseja mudar?

O presidente? O governo? O sistema político? Sua condição econômica? Ou uma realidade social que já não corresponde às suas expectativas?

Talvez o maior equívoco seja interpretar o desejo de mudança como adesão automática ao conservadorismo. Há eleitores que não estão escolhendo uma ideologia, mas procurando uma saída para uma realidade que já não lhes oferece respostas satisfatórias.

O sociólogo francês Émile Durkheim chamou de anomia a condição em que as normas e referências sociais perdem sua capacidade de orientar os indivíduos. O conceito, formulado no século XIX, ajuda a compreender alguns dos impasses contemporâneos.

Vivemos numa sociedade que estimula permanentemente o consumo, o sucesso individual e a competição, mas não oferece a todos condições equivalentes para alcançar aquilo que promete.

O cidadão trabalha, paga impostos, enfrenta filas, convive com a violência, vê o preço dos alimentos subir e observa, muitas vezes perplexo, os privilégios de quem ocupa posições de poder.

Enquanto isso, a política promete soluções que nem sempre chegam à sua vida cotidiana.

Não surpreende que cresçam a frustração, a desconfiança e o sentimento de abandono.

A questão é que a insatisfação não produz necessariamente consciência política. Pode produzir revolta, apatia, ressentimento ou simplesmente a vontade de substituir quem está no poder.

Mudar, nesse contexto, torna-se uma esperança. Mas também pode se transformar numa reação.

E existe uma diferença enorme entre mudar porque se conhece o caminho e mudar porque já não se suporta permanecer onde está.

Afinal, o brasileiro está votando no futuro que deseja ou apenas tentando escapar do presente que já não suporta?

*Laura Lucena é jornalista desde 1978. Mora em Chapada dos Guimarães, MT, desde 2011, onde se formou como guia regional de turismo e atua de forma independente. Também é escritora, poeta e produtora cultural.