O Grande Estresse Global e as Telas

*Maria Augusta Ribeiro

Estamos vivendo um grande estresse global ligado ao uso intensivo das telas. Nunca passamos tanto tempo olhando para dispositivos quanto hoje, e isso tem reflexos importantes na saúde como um todo, especialmente para quem está no mercado de trabalho.

O tempo médio diário de tela entre adultos chega a 7 horas e 4 minutos, um crescimento de cerca de 30% desde antes da pandemia. Muitos profissionais ultrapassam facilmente as 9 ou 10 horas diárias quando somamos trabalho, deslocamento, redes sociais e entretenimento.

Estudos recentes mostram que esse uso elevado está associado a diversos desafios de saúde. Um artigo publicado em 2026 na revista “Humanities and Social Sciences Communications” apontou que o tempo prolongado em telas aumenta o risco de ansiedade, depressão, dificuldade de concentração e problemas de sono em adultos. A Organização Mundial da Saúde também observou o crescimento do uso problemático de redes sociais e plataformas digitais entre a população economicamente ativa.

A Geração Z e os Millennials, que hoje compõem a maior parte da força de trabalho, relatam altos níveis de estresse. Segundo a Deloitte Global 2025 Gen Z and Millennial Survey, 40% desses jovens dizem sentir estresse ou ansiedade na maior parte do tempo, e quase metade avalia sua saúde mental como regular ou ruim.

Vários elementos contribuem para esse quadro. O scrolling contínuo mantém o cérebro em um ciclo constante de estímulos. A comparação social nas redes pode influenciar o humor e a autoestima. Notificações frequentes interrompem a concentração. O uso de telas à noite afeta a qualidade do sono, essencial para a recuperação física e emocional.

Os modelos de trabalho altamente conectados amplificam o problema. Reuniões intermináveis por videochamada, mensagens fora do horário e a expectativa de disponibilidade constante geram uma sensação permanente de sobrecarga. Muitos profissionais relatam dificuldade em realmente desconectar, mesmo após o expediente.

Outro aspecto que agrava o cenário é a combinação entre tempo excessivo em telas, vida sedentária e falta de movimento. Quando grande parte do dia é passada sentado diante de uma tela, o corpo fica menos ativo. Essa redução de movimento contribui para ganho de peso, problemas musculares, piora da circulação e maior risco de doenças crônicas.

Nesse contexto, ganha força um ciclo conhecido: a indústria oferece alimentos altamente processados, ricos em açúcar, sal e gorduras, que são consumidos com facilidade durante longas jornadas de trabalho em frente ao computador. Depois, o mesmo sistema apresenta soluções farmacológicas para emagrecer, controlar o apetite ou tratar os efeitos colaterais. A vida sedentária e o pouco tempo para atividades físicas reais potencializam esse ciclo, tornando-o ainda mais presente na rotina de quem trabalha muitas horas conectado.

Um estudo randomizado controlado publicado em 2025 no “BMC Medicine” mostrou que reduzir o tempo de tela por apenas três semanas já trouxe melhorias em sintomas depressivos, níveis de estresse, qualidade do sono e sensação geral de bem-estar. Isso indica que ajustes no padrão de uso podem gerar impactos positivos na saúde integral.

Vivemos um momento em que a hiperconectividade faz parte do dia a dia profissional. As telas trouxeram facilidades, produtividade e acesso a informação como nunca antes. Ao mesmo tempo, o uso prolongado e intenso tem sido acompanhado por maior sensação de sobrecarga, cansaço físico e mental, e desafios no equilíbrio da saúde como um todo.

O equilíbrio parece ser o grande desafio atual. Encontrar maneiras de integrar as telas de forma mais consciente, preservando tempo para sono restaurador, movimento físico, relações presenciais e momentos de desconexão natural pode ajudar a cuidar da saúde nesta era digital.

O futuro dependerá de como conseguimos conviver com as telas sem deixar que elas ocupem todo o espaço da nossa vida.

*Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e Netnografia no Belicosa.com.br