O fogo como risco de negócio: por que 2026 será decisivo para o Brasil rural

*Coronel Metelo

O ano de 2026 não começa com um alerta. Começa com uma constatação. A crise dos incêndios florestais deixou de ser um fenômeno localizado, sazonal ou previsível. Tornou-se estrutural, global e cada vez mais extrema. Para países com vasta extensão territorial, forte produção agropecuária e biomas sensíveis como o Brasil, isso representa um risco sistêmico ao patrimônio ambiental, econômico e social.

Como presidente do Comitê Nacional de Gestão de Incêndios Florestais e profissional com décadas de atuação na prevenção e no combate ao fogo, afirmo com clareza: o Brasil entra em 2026 diante do maior desafio de gestão do fogo das últimas décadas. A pergunta que se impõe não é mais se enfrentaremos grandes incêndios, mas quão preparados estaremos quando eles ocorrerem.

O fogo não reconhece fronteiras

Os eventos recentes no Hemisfério Sul funcionam como um laboratório a céu aberto do que pode ocorrer em território brasileiro. Na Austrália, ondas de calor próximas a 48 °C agravaram drasticamente o risco de incêndios, levando cidades como Melbourne a registrarem o dia mais quente em 17 anos. No Chile, incêndios no centro-sul do país provocaram dezenas de mortes, evacuações em massa e destruição de áreas produtivas. Na Patagônia argentina, mais de 30 mil hectares foram consumidos pelo fogo, em um episódio classificado como a pior tragédia ambiental da região em duas décadas, com nuvens de fumaça visíveis por imagens de satélite da NASA.

Esses episódios não são exceções climáticas. São sinais de uma nova normalidade. A Organização das Nações Unidas projeta um aumento de até 50% nos incêndios extremos até o fim do século, alertando que governos e sistemas produtivos ainda estão despreparados para esse cenário.

O impacto vai muito além do meio ambiente. Em 2025, cerca de 390 milhões de hectares foram queimados no mundo. As perdas econômicas globais chegaram a US$ 224 bilhões, sendo que menos da metade desse valor estava coberta por seguros. Em outras palavras: o fogo destrói capital, renda e segurança patrimonial, transferindo o prejuízo diretamente para produtores, empresas e governos locais.

Brasil: dados que acendem o sinal vermelho

No início de 2026, o Brasil já apresenta indicadores preocupantes. Dados de monitoramento por satélite mostram que 24,8% dos municípios brasileiros enfrentam ondas de calor com temperaturas até 5 °C acima da média histórica. Esse cenário elevou o Índice de Perigo de Fogo ao maior patamar desde 2021.

O reflexo é direto: a área queimada no país cresceu 17% em relação ao período anterior. No Pantanal, o aumento ultrapassa 330%, configurando um quadro de vulnerabilidade extrema. A possível consolidação do fenômeno El Niño tende a agravar ainda mais esse cenário, prolongando a estação seca e intensificando as temperaturas em níveis críticos para a produção agropecuária.

Não se trata de projeções alarmistas. São dados objetivos que indicam uma mudança profunda no risco operacional do campo brasileiro.

Prevenção deixou de ser custo e tornou-se estratégia

Ao produtor rural, a mensagem precisa ser direta: em 2026, incêndio florestal é risco de negócio. Não apenas pela perda de lavouras, pastagens, cercas e equipamentos, mas também pelas implicações legais, ambientais e reputacionais.

A prevenção deixou de ser uma recomendação técnica para se tornar uma decisão estratégica. As propriedades que atravessarão esse novo ciclo climático com menor impacto serão aquelas que investirem, desde já, em planejamento, capacitação e monitoramento.

Entre as medidas fundamentais estão a criação e manutenção de aceiros adequados ao risco local; o uso criterioso e autorizado do fogo para manejo; o treinamento de equipes internas; a disponibilidade de equipamentos de combate; e o acompanhamento permanente de ferramentas de monitoramento de risco.

Mas há um elemento central que precisa ganhar protagonismo: o Plano de Prevenção Contra Incêndios Florestais (PPCIF). Esse plano funciona como uma apólice operacional contra o fogo. Ele mapeia áreas críticas, define rotas de fuga, estrutura brigadas internas e estabelece protocolos claros de resposta rápida. Sem planejamento, a reação é tardia. E, no fogo, tempo é patrimônio.

Uma agenda que exige ação imediata

O cenário global e os dados nacionais deixam claro: 2026 será o ano da prevenção extrema. A gestão do fogo precisa deixar de ser reativa e passar a ocupar o centro das decisões estratégicas no campo, nas empresas e no poder público.

A responsabilidade é compartilhada. Produtores, governos, instituições técnicas e sociedade precisam atuar de forma integrada. Esperar o fogo chegar não é mais uma opção racional.

Agir agora significa preservar vidas, proteger a produção e garantir a continuidade de um dos setores mais estratégicos da economia brasileira. O fogo não avisa. Mas os dados, sim.

*Aluísio Metelo Junior é Coronel do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso, atual presidente do Comitê Nacional de Gestão de Incêndios Florestais e membro do Comitê Nacional do Manejo Integrado do Fogo – COMIF.