O cardápio de papel, o QR Code e a boa convivência

*Daniel Teixeira

Nos últimos tempos, voltou ao debate público a discussão sobre o uso de cardápios digitais em bares e restaurantes. O tema costuma aparecer acompanhado de uma preocupação legítima: a de que pessoas mais velhas, ou simplesmente menos familiarizadas com a tecnologia, possam se sentir excluídas, constrangidas ou mal atendidas quando chegam a um estabelecimento e encontram apenas um QR Code sobre a mesa.

Essa preocupação merece respeito. Nenhum empresário sensato deve tratar a experiência do cliente como detalhe secundário, já que o restaurante não vende apenas comida. Vende acolhimento, conforto, atenção, memória afetiva e, muitas vezes, um pequeno intervalo de prazer no meio da correria do dia. Se alguém se sente perdido diante de um código digital, não cabe deboche, impaciência ou indiferença. Cabe atendimento.

Também é verdade que o cardápio físico tem seu encanto. Há algo de familiar naquele menu impresso, plastificado, às vezes marcado pelo uso, pelas dobras, por uma mancha antiga de molho que resistiu bravamente à limpeza e virou quase patrimônio da casa. O papel carrega certa solenidade simples: a pessoa pega, folheia, compara, pergunta, escolhe. Para muita gente, isso faz parte do ritual de sentar à mesa.

O cardápio digital não foi criado para excluir pessoas, dificultar pedidos ou transformar o almoço em prova de informática. Ele surgiu porque a realidade dos restaurantes mudou, as coisas vão acontecendo de maneira rápida e operação precisa responder a isso. No cardápio impresso, cada mudança implica em custo e em uma casa com muitas mesas ou menu extenso, isso pesa. Logo, o custo operacional, cedo ou tarde, aparece em algum lugar e quem empreende no setor de alimentação sabe que não existe despesa invisível. Existe despesa que, em algum momento, alguém paga.

Nenhum restaurante sério deve deixar um cliente sem atendimento por não conseguir acessar um QR Code. Sempre deve haver solução humana, já que um atendente pode apresentar as opções, ajudar no acesso, explicar os pratos com paciência ou, quando possível, oferecer um cardápio físico de apoio. Hospitalidade não foi revogada pela tecnologia. Ainda bem.

O QR Code aparece no banco, no laboratório, no aeroporto, no evento, na farmácia, no estacionamento e até em órgãos públicos. A tecnologia, portanto, não é uma ilha distante. Ela já está na vida cotidiana de todos nós. O que precisa ser preservado é o direito ao bom atendimento e isso não se faz necessariamente por imposição legal, mas sim, com treinamento, sensibilidade, bom senso e respeito.

Transformar toda preferência compreensível em obrigação geral pode parecer uma solução simples, mas quase sempre cria novos problemas, pois obrigar restaurantes a manter cardápios físicos em larga escala, em qualquer situação, é legislar sobre a mesa sem conhecer a cozinha. E quem conhece cozinha sabe: regra feita longe do fogo costuma queimar o prato.

A boa resposta não está no confronto entre gerações, nem na caricatura do idoso que rejeita tecnologia, nem na caricatura do empresário que não quer atender bem. Esses extremos empobrecem o debate. A população mais velha merece consideração, conforto e respeito. Os bares e restaurantes também merecem liberdade para organizar sua operação de modo eficiente, sustentável e economicamente viável.

O caminho mais razoável é permitir o avanço do cardápio digital sem abandonar a gentileza, auxílio e paciência. Quando houver cardápio físico disponível, ótimo. Quando não houver, que exista alguém preparado para explicar as opções sem pressa e sem constrangimento, pois o atendimento humano continua sendo indispensável.

Entre a saudade e a modernidade, talvez caiba uma solução simples: menos lei, mais bom senso; menos imposição, mais hospitalidade; menos guerra contra a tecnologia, mais cuidado com as pessoas. Afinal, em restaurante, antes mesmo da comida, o que deve chegar primeiro à mesa é o respeito.

*Daniel Teixeira é empresário e presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, seccional Mato Grosso (Abrasel-MT)